A digitalização dos processos de projeto e construção tem ampliado o papel das plataformas BIM (Building Information Modeling) na articulação entre arquitetura, engenharia, indústria e obra. Com a incorporação crescente de inteligência artificial, ferramentas colaborativas e fluxos de trabalho baseados em dados, o setor AEC começa a vislumbrar uma nova etapa de maturidade tecnológica, em que a integração entre disciplinas e a automação de tarefas operacionais ganham relevância.

Nesse contexto, empresas desenvolvedoras de software vêm ampliando o escopo das soluções BIM, buscando conectar desde as fases iniciais de concepção até a execução e operação dos edifícios. A Graphisoft — parte do Grupo Nemetschek — participa pela primeira vez da Haus Decor Show, evento realizado simultaneamente à Expo Revestir em São Paulo, apresentando aplicações do Archicad voltadas também para projetos de interiores, especificação de materiais e comunicação de projetos.

Em entrevista ao PiniWeb, Miles Smith, Senior Industry Growth & Strategy Leader da Graphisoft, e Diego Vargas, diretor de vendas da empresa no Brasil, comentam o papel da inteligência artificial na evolução das plataformas BIM, os desafios da interoperabilidade entre softwares, o uso de ferramentas colaborativas no canteiro de obras e as perspectivas de expansão do BIM no mercado brasileiro.

Confira a entrevista

O BIM vem evoluindo rapidamente nos últimos anos, com a incorporação de recursos baseados em inteligência artificial. Como você avalia o papel da IA na próxima geração de ferramentas BIM e de que forma ela pode acelerar ou transformar o trabalho de arquitetos, engenheiros e demais profissionais do setor AEC?

Miles Smith: O BIM já existe há bastante tempo e vem evoluindo rapidamente nos últimos anos, mas acredito que estamos prestes a entrar em um novo capítulo dessa tecnologia.

Na Graphisoft, estamos avançando no desenvolvimento de uma nova plataforma de Inteligência de Design por meio do Project Aurora. Nesse cenário, a inteligência artificial terá um papel central nessa transformação. Os ambientes BIM que conhecemos hoje evoluíram muito, com recursos como compartilhamento em nuvem e colaboração digital, mas agora começamos a ver a entrada da IA de forma mais consistente — tanto como ferramenta de análise quanto com potencial para atuar como um agente dentro da própria plataforma.

Naturalmente, existem aspectos importantes a considerar. O primeiro deles é a privacidade dos dados. Como desenvolvedores de plataformas BIM e de ferramentas baseadas em IA, precisamos ser extremamente cuidadosos com os dados dos usuários e com a proteção da propriedade intelectual.

Outro ponto é que arquitetos, engenheiros e projetistas vêm enfrentando uma pressão crescente relacionada à documentação, anotações e outras tarefas operacionais que muitas vezes não estão no centro do trabalho de projeto. Para a maioria desses profissionais, o interesse principal está na criatividade.

Nesse sentido, vemos na IA uma oportunidade de permitir que os profissionais se concentrem mais no que fazem de melhor. A ideia é que a IA cuide do que ela faz melhor — processar grandes volumes de dados, reconhecer padrões, acelerar tarefas de documentação e reduzir erros e omissões — enquanto os projetistas podem dedicar mais tempo ao desenvolvimento de soluções que impactem positivamente a vida das pessoas.


A digitalização dos processos de projeto tem ampliado o uso de plataformas colaborativas. Na prática, como soluções como BIMcloud e BIMx estão mudando a forma como diferentes disciplinas — arquitetura, engenharia e construção — trabalham juntas ao longo do ciclo de vida de um edifício?

Miles Smith: O BIMx é um bom exemplo disso e, dentro da Graphisoft, é uma solução bastante singular. Ele surgiu há mais de uma década como um visualizador de modelos, porque nossos clientes queriam compartilhar modelos 3D com clientes e parceiros sem que essas pessoas precisassem adquirir uma licença completa do Archicad.

Assim nasceu o BIMx, inicialmente como um visualizador. Com o tempo, ele evoluiu muito e hoje se tornou também uma ferramenta de coordenação bastante útil no canteiro de obras.

Recentemente, aqui no Brasil, conversei com um cliente que descreveu como essa ferramenta mudou a forma de trabalho das equipes em obra. Tradicionalmente, muitos profissionais dependem apenas de pranchas impressas, o que faz com que cada pessoa visualize apenas uma parte do projeto.

Com o BIMx, eles passaram a compartilhar o modelo digital no canteiro utilizando tablets. Dessa forma, todos conseguem acessar as informações do projeto e visualizar o modelo completo, compreendendo melhor a intenção de projeto.

Isso ajuda a garantir que a coordenação entre disciplinas e as decisões tomadas durante o desenvolvimento do projeto sejam mantidas também na fase de execução.


A Graphisoft tem defendido o conceito de openBIM como base para fluxos de trabalho mais transparentes e interoperáveis. Quais são hoje os principais desafios para que o setor AEC avance rumo a uma colaboração verdadeiramente aberta entre diferentes softwares e plataformas?

Miles Smith: Esse tem sido um desafio em praticamente todos os mercados desde que o BIM começou a se consolidar. No início, as dificuldades estavam mais relacionadas a limitações técnicas, especialmente à compatibilidade entre arquivos em um sistema baseado em troca de dados.

Com o tempo, no entanto, os ecossistemas fechados passaram a ser também resultado de decisões estratégicas de mercado. Quando um grande fornecedor domina determinado ambiente tecnológico, pode acabar criando um ecossistema fechado, em que todos precisam trabalhar dentro daquela plataforma.

Existem tecnologias importantes que ajudam a enfrentar esse desafio. O padrão IFC (Industry Foundation Classes), por exemplo, continua sendo um formato extremamente poderoso de intercâmbio de dados. Trata-se de um padrão aberto, governado pela buildingSMART, que vem ganhando cada vez mais relevância no setor.

O IFC desempenha um papel fundamental ao permitir que diferentes softwares consigam trocar informações e colaborar entre si. Ao mesmo tempo, ele apresenta desafios. Diferentemente de ferramentas como o Archicad — que são relativamente fáceis de aprender e usar — o IFC é um formato mais técnico, com grande volume de dados e menos intuitivo.

Mesmo assim, continua sendo uma ferramenta essencial para garantir interoperabilidade e colaboração no setor AEC.


O Archicad tem evoluído ao longo dos anos para apoiar fluxos de trabalho mais integrados. Quais são hoje as principais frentes de desenvolvimento do software para conectar melhor as etapas de projeto, construção e operação dos edifícios?

Miles Smith: Um desenvolvimento que me entusiasma particularmente é o nosso novo MEP Designer. Antes de trabalhar com arquitetura, eu mesmo atuei por muitos anos como instalador de sistemas MEP para financiar meus estudos, então fico especialmente satisfeito em ver como essa área se tornou parte importante do nosso portfólio.

Durante muito tempo tivemos o MEP Modeler, que era uma ferramenta simples, mas eficaz. Nos últimos anos investimos bastante nessa área e lançamos o MEP Designer, uma solução mais robusta e totalmente integrada ao ecossistema do Archicad.

Ela permite que arquitetos e profissionais responsáveis pelos sistemas mecânicos, elétricos e hidráulicos trabalhem de forma mais próxima e colaborativa, enfrentando um problema clássico do setor: a dificuldade de integrar adequadamente esses sistemas ao projeto arquitetônico.

Agora essas disciplinas podem atuar diretamente no mesmo ambiente de projeto, utilizando recursos como Teamwork e BIMcloud. Isso melhora a coordenação entre as equipes e ajuda a reduzir conflitos entre arquitetura e sistemas prediais.


A participação da Graphisoft na Haus Decor Show indica uma aproximação com o universo do design de interiores e da especificação de materiais. De que forma o BIM pode contribuir para decisões mais qualificadas nessas etapas, especialmente na relação entre projetistas, indústria e clientes?

Miles Smith: A Haus Decor Show é um evento muito interessante e inspirador. É significativo ver o Archicad presente nesse contexto, porque isso indica a direção que o mercado vem tomando, especialmente quando falamos de sustentabilidade.

Em alguns mercados ainda existe um foco muito grande em novas construções, mas a Graphisoft também acredita fortemente na importância da reutilização e da renovação de edifícios existentes como parte de um futuro mais sustentável para o setor.

Se não conseguirmos reutilizar uma parcela significativa do ambiente construído que já existe, adaptando edifícios às novas exigências técnicas, normativas ou de design, corremos o risco de comprometer a viabilidade futura do mercado.

Durante muito tempo, renovação e reutilização eram vistas apenas como soluções econômicas ou como uma segunda opção. Mas eventos como a Haus Decor Show mostram outra realidade. Quando observamos materiais de alto padrão — como mármores, metais e tecidos sofisticados — percebemos como a requalificação de edifícios pode se tornar uma escolha de design qualificada.

Nesse contexto, o BIM ajuda a conectar projetistas, fabricantes e clientes, permitindo decisões mais informadas e integradas ao processo de projeto.


O Brasil é apontado como um mercado estratégico para a empresa. Como você avalia o estágio atual de adoção do BIM no país e quais oportunidades vê para ampliar o uso dessas tecnologias nos próximos anos?

Diego Vargas: De fato, o Brasil é hoje um mercado que tem ganhado bastante visibilidade dentro da empresa. Um estudo global recente apontou o país como aquele com maior potencial de crescimento na adoção de BIM, o que reforça a importância de ampliar os investimentos no mercado brasileiro e em toda a América do Sul.

Naturalmente, outras regiões também estão no radar da empresa, como a Ásia, mas o Brasil tem recebido uma atenção especial neste momento.

Em relação às oportunidades de expansão, vejo um caminho claro no avanço de tecnologias como inteligência artificial e Digital Twins. Todo o grupo Nemetschek tem hoje um foco muito forte no desenvolvimento de soluções baseadas em IA.

Não estamos falando apenas de aplicações voltadas à visualização, que já existem no mercado. O objetivo é avançar para usos mais estruturais da IA, especialmente em tarefas relacionadas à documentação e à automação de processos.

Muitas dessas atividades — como preparar documentação ou inserir cotas — consomem muito tempo dos profissionais e não são necessariamente a parte mais criativa do trabalho. A ideia é que a IA possa assumir cada vez mais essas tarefas operacionais, permitindo que arquitetos e projetistas tenham mais tempo para se dedicar ao desenvolvimento do projeto.

No fim das contas, o futuro da tecnologia passa por isso: usar ferramentas digitais para facilitar o trabalho dos profissionais e ampliar o espaço para a criatividade e para projetos de maior qualidade.

Miles Smith, Senior Industry Growth e Strategy Leader da Graphisoft:

Miles Smith é gestor sênior de estratégia e desenvolvimento de mercado na Graphisoft, líder global em software para o segmento de arquitetura, engenharia e construção. Miles tem quase duas décadas de experiência em design arquitetônico, ciência da construção e adoção de produtos SaaS. Atualmente, é uma voz de confiança no setor de AEC, trabalhando em colaboração com os clientes da Graphisoft para implementar soluções de software avançadas visando atender às suas necessidades específicas de projeto e levar o setor de arquitetura a um futuro mais eficiente. Miles é bacharel em Tecnologia da Construção pela Appalachian State University e mestre em Arquitetura pelo Boston Architectural College, onde leciona como professor convidado sobre temas relacionados a tecnologias para AEC.

Diego Vargas, Diretor de Vendas da Graphisoft Brasil:

Diego Vargas é Diretor de Vendas da Graphisoft Brasil, onde atua há mais de uma década liderando estratégias comerciais e de expansão do uso de tecnologias BIM no país. Profissional com ampla experiência no setor de software, possui forte atuação em áreas como negociação, planejamento de negócios, desenvolvimento de equipes e gestão de vendas. É formado pela Business School São Paulo e tem contribuído para ampliar a adoção de soluções como o Archicad, fortalecendo o ecossistema BIM no mercado brasileiro.

aflalo/gasperini arquitetos representa a arquitetura brasileira no MIPIM, em Cannes

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