Alguns dos edifícios mais reconhecíveis da paisagem paulistana — e de grandes metrópoles ao redor do mundo — levam a assinatura de Isay Weinfeld, ainda que poucos consigam definir com precisão qual seria o seu “estilo” arquitetônico. Essa dificuldade, longe de ser um problema, faz parte do enigma e da força de um criador cuja obra escapa a rótulos fáceis e resiste a classificações rígidas. Reduzi-lo apenas à arquitetura, no entanto, seria um equívoco.
Ao longo de cinco décadas de produção intensa e coerente, o arquiteto paulistano construiu uma trajetória que atravessa, com rara fluidez, o design, as artes visuais e o cinema. Essas múltiplas frentes de atuação estarão reunidas em Et Cetera, a mais abrangente mostra dedicada à sua carreira, em cartaz no Instituto Tomie Ohtake entre 5 de março e 17 de maio.
Com curadoria de Agnaldo Farias, identidade gráfica de Giovanni Bianco e catálogo com fotografias de Bob Wolfenson, a exposição não se organiza como uma retrospectiva convencional, mas como a apresentação de um modo de pensar e criar. Em seu texto curatorial, Farias observa que a arquitetura não ocupa exatamente o primeiro lugar na hierarquia íntima de Weinfeld. Antes vêm a música e o cinema — e talvez aí resida a chave de sua compreensão do espaço.
“Isay faz arquitetura sem saber desenhar. Desafiou um dos princípios basilares da arquitetura”, escreve Farias. A presença, logo na entrada da exposição, do primeiro desenho feito por Weinfeld na infância — uma pequena casa — funciona como um recado direto aos estudantes: existem caminhos além daqueles previstos pelos currículos tradicionais das escolas.
Mais do que o virtuosismo técnico, que evidentemente possui, o que se impõe na obra de Weinfeld é a sensibilidade para ritmo, atmosfera e movimento — qualidades que aproximam sua produção do cinema e da música. A diversidade de meios não fragmenta sua trajetória; ao contrário, revela uma visão contínua, na qual arquitetura, design, cinema e artes visuais se articulam como expressões de um mesmo impulso criativo.
Essa perspectiva se reflete diretamente em Et Cetera, que evita o formato expositivo mais habitual da arquitetura. Não há aqui apenas a sucessão de plantas, cortes e maquetes que reproduzem, em escala reduzida, edifícios já conhecidos. Embora presentes, esses elementos não definem a mostra. Weinfeld optou por formas mais livres de apresentar sua produção, aproximando o visitante do processo criativo, e não apenas dos resultados finais. O que se vê é menos a soma de carreiras paralelas e mais uma continuidade desenvolvida em diferentes suportes.
Cerca de 180 itens — entre maquetes arquitetônicas, móveis, filmes, joias, peças de moda, textos do próprio arquiteto e documentos diversos — ocupam as duas grandes salas do percurso expositivo. O conjunto traça um panorama que tem início em 1973, quando Weinfeld abriu seu primeiro escritório, e recua ainda a trabalhos de formação e referências artísticas decisivas em sua construção criativa.
Algumas maquetes produzidas especialmente para a exposição subvertem a lógica tradicional da miniatura arquitetônica. Em um dos exemplos mais emblemáticos, um grande cubo branco revela, em um de seus vértices, o interior de um apartamento projetado por Weinfeld, como se o espaço tivesse sido esculpido na matéria, e não apenas desenhado sobre o papel. Em outro ponto, um nicho horizontal apresenta sete escadas icônicas concebidas pelo arquiteto — da escadaria em vidrotil vermelho da loja Fórum, na Rua Oscar Freire, à escada caracol flutuante em madeira da Casa Cubo. Dispostas lado a lado, assumem caráter quase escultórico, evidenciando como um elemento funcional recorrente se transforma em experiência espacial e gesto formal.
Outras maquetes exploram a dimensão sensorial. O Hotel Fasano Fazenda Boa Vista surge suspenso por cabos de aço sobre um espelho de contorno orgânico, em referência ao lago em frente ao edifício. Já o Instituto Ling, em Porto Alegre, é apresentado em um nicho azul profundo pontuado por pequenos pontos de luz, como um céu estrelado.
A produção como artista visual aparece em obras como Incredulidade (2024), apresentada anteriormente na individual Ininteligibilidade. Nela, um cabide de metal encontra um crucifixo de madeira em uma associação inesperada que ativa humor, ironia e senso crítico. A esse gesto soma-se a série fotográfica realizada com celular, que deu origem ao livro ISAY W (Editora Oscar Riera Ojeda Publishers), com projeto gráfico de Giovanni Bianco. Durante dez anos, Weinfeld percorreu a cidade registrando placas, pixos, grafites, detalhes arquitetônicos, gatos, pombos e cenas corriqueiras em enquadramentos inesperados, compondo um estudo visual quase semiótico da vida urbana paulistana.
Entre as peças da mostra, a oposição entre um berço e um caixão, ambos desenhados por Weinfeld, introduz uma dimensão simbólica que atravessa o percurso como metáfora do ciclo da vida. Essa capacidade de deslocamento também aparece quando o arquiteto se apropria das formas das célebres batatas fritas e do copo de refrigerante do McDonald’s para conceber mobiliário para a rede de fast food, transformando referências populares em linguagem de design com humor e precisão. No mobiliário autoral, essa lógica reaparece na Farmacinha (2010), criada para a Dpot: um sistema modular de caixas em diferentes materiais, tamanhos e mecanismos de abertura, que permite múltiplas combinações conforme o uso e o repertório de cada cliente.
A relação entre música, imagem e arquitetura manifesta-se ainda na série IW Filmes (2013–2025), composta por 34 curtas-metragens de um a três minutos. Cada filme é dedicado a uma obra do escritório e estruturado a partir de uma música escolhida por Weinfeld, estabelecendo um diálogo sensível com o projeto, o lugar, o cliente ou o momento de sua concepção.
A arquitetura
Se há um fio condutor na carreira de Isay Weinfeld, ele está menos na forma visível e mais na atitude. Seu trabalho é marcado por precisão e elegância contida. Os espaços e objetos evitam gestos grandiloquentes e privilegiam a permanência, o convívio e a experiência cotidiana. Há um entendimento profundo de proporção, materialidade e atmosfera.
Em diferentes ocasiões, Weinfeld associa sua prática a um gesto de cuidado, voltado ao bem-estar das pessoas e à relação respeitosa entre edifício e cidade. Por isso, rejeita o rótulo de “arquiteto do luxo” — “essa palavra não me diz absolutamente nada”, já afirmou — preferindo pensar seus projetos a partir da experiência que proporcionam.
Essa postura ajuda a compreender por que seus projetos raramente se impõem pela forma e operam, antes, no plano da vivência. Weinfeld costuma afirmar que procura não se repetir e tem orgulho de não possuir um estilo reconhecível. Sua prática não se ancora em uma linguagem fixa, mas revela uma coerência evidente. Ao longo da carreira, desenvolveu cerca de 600 projetos, número que ele próprio evita precisar, como a sugerir que a contagem importa menos do que o percurso.
Essa liberdade o levou a atuar em contextos culturais e urbanos diversos: do desenho dos hotéis Fasano, que marcaram a hotelaria brasileira contemporânea, à Casa Cubo, síntese radical de forma e espaço, passando pelo edifício residencial do programa Minha Casa, Minha Vida, em frente ao Minhocão. Com 15 pavimentos em degradê azul, o edifício articula moradia e comércio, valoriza ventilação cruzada, iluminação natural e áreas comuns na cobertura, como lavanderia, salas de trabalho, jardins e horta. Uma maquete do projeto ocupa lugar de destaque na exposição.
Sua produção internacional inclui obras nos Estados Unidos (Nova Iorque, Los Angeles, Miami e Southampton), além de Lisboa, Londres, Bogotá, Barcelona, Punta del Este, Mônaco e Belgrado. Nesse percurso, Weinfeld tornou-se o primeiro arquiteto brasileiro desde Oscar Niemeyer a assinar edifícios em Nova Iorque. Um deles, o The Elisa (2025), no Meatpacking District, é apresentado na mostra por meio de uma maquete volumétrica que reproduz toda a quadra em que se insere.
A atenção ao espaço coletivo aparece também no projeto da Travessa Tim Maia (2010), na Vila Madalena, realizado em parceria com a incorporadora Idea!Zarvos e a Prefeitura de São Paulo, que redesenhou degraus, corrimãos, rampas, canteiros e iluminação ao longo de três quadras, requalificando o percurso do pedestre.
Ao celebrar 50 anos de atividade, Et Cetera não se apresenta como retrospectiva nostálgica, mas como afirmação de uma prática ainda viva, curiosa e aberta ao inesperado. Em um momento de crescente especialização no campo criativo, a obra de Isay Weinfeld lembra que a imaginação, quando verdadeiramente livre, prefere sempre o território aberto do etcetera.
Institucional
A exposição Isay Weinfeld – Et Cetera é uma realização do Instituto Tomie Ohtake, em parceria com o escritório de arquitetura Isay Weinfeld, com Fernanda Fernandes como curadora-assistente. O patrocínio é do Bradesco e da JHSF (cota apresenta) e da MFC Construtora (cota prata). A mostra conta ainda com o apoio das empresas Lumisystem, Liv Inc e Kopstein, Core e Hakwood, Bellas Artes, Roca, Casual Móveis, Dpot, Phenicia Concept, Companhia de Iluminação, Effect Lighting, ETEL e Stamp Painéis Arquitetônicos.
No mesmo período, o Instituto Tomie Ohtake apresenta Ruy Ohtake – Percursos do habitar, em cartaz a partir de 7 de março, exposição que inaugura a nova fase da Casa-ateliê Tomie Ohtake, no Campo Belo, reforçando o momento da instituição dedicado à arquitetura.







